Arquivo mensal: março 2009

Em defesa dos sonhos profissionais

Durante a infância, é comum ouvirmos dos adultos que nos cercam – pais, avós, tios, professores – a clássica pergunta: “o que você quer ser quando crescer?” Crianças são seres criativos e sonhar com a futura profissão faz parte do desenvolvimento de qualquer ser humano. Nessa fase, temos pouca ou quase nenhuma auto censura, de modo que a imaginação voa longe…

 

Logicamente, com o passar dos anos, as idéias mirabolantes da infância vão dando espaço a outras mais próximas da realidade. Durante a adolescência, mesmo com as turbulências típicas da idade, é comum os jovens começarem a definir quais são suas aptidões e, a partir daí, terem uma série de escolhas profissionais pela frente. Com o início da vida adulta, vem também a pressão – por vezes nada sutil – da família e sociedade para que o jovem escolha uma profissão e ingresse em alguma faculdade ou curso técnico.

 

Considerando um jovem de classe média, ele certamente entrará em uma faculdade, seja pública ou particular, em um curso que tenha a ver com a sua vocação ou área em que demonstre ter alguma aptidão (exatas/tecnologia, humanas, biológicas) – e provavelmente começará a estagiar para adquirir experiência profissional e poder custear parte – senão a totalidade – dos seus estudos. No entanto, é aqui que os sonhos de infância e adolescência começam a dar lugar a questões mais práticas, da vida real. Ao iniciar o estágio, o jovem ainda não tem noção do que exatamente gostaria de fazer, relacionado à sua área de estudos, e nem certeza de que está no caminho certo. O estágio deveria servir como um guia – uma espécie de test drive da vida profissional.

 

No entanto, em uma sociedade como a nossa, na qual a grande maioria dos estudantes universitários depende da bolsa-auxílio dos estágios para financiar os próprios estudos, é complicado para um jovem “escolher” em qual área, relacionada à sua formação, gostaria de desenvolver suas atividades e adquirir experiência. Então, aceita a primeira proposta que aparece (ou a com a melhor remuneração) e, depois, não tem coragem de mudar e buscar algo que lhe traga mais satisfação. A necessidade fala mais alto do que os próprios sonhos e aptidões. E assim temos estudantes de administração que sonham com o RH enquanto enfrentam horas de estágio em bancos, atendendo ao público… estudantes de engenharia civil que sonham com grandes obras, enquanto passam horas preenchendo formulários em alguma repartição pública, e por aí vai – exemplos não faltam. Se questionados se são felizes, sorriem amarelo… afinal, estão pagando a faculdade, não? E é isso o que importa para a família, para os amigos, para a sociedade em geral.

 

Esse comportamento era comum há vinte, trinta anos ou mais, quando a discussão sobre carreira x vocação era quase inexistente. Antes, era a empresa que determinava o rumo da carreira de cada funcionário, em função de seus próprios interesses. Em troca, oferecia um emprego quase que vitalício, salário, benefícios e segurança. Ninguém precisava pensar muito qual caminho seguir – isso já estava previamente determinado nas políticas de carreiras das organizações. Até mesmo os cursos que o funcionário deveria fazer já estavam definidos. Seguir os próprios sonhos era uma atitude típica de “malucos” ou de quem já nascia rico e não precisava de todo modo, se preocupar com o futuro…

 

Mas os tempos mudaram, e as mesmas empresas, agora, exigem profissionais dinâmicos, competitivos, que façam a diferença… e aí temos uma grande incoerência no mercado de trabalho: ao mesmo tempo que as organizações precisam e exigem profissionais competentes, as próprias, ao alocar alguém sem aptidão para uma determinada vaga, tornam-se coniventes do comportamento passivo dos seus colaboradores. Até que ponto isso é interessante para as organizações? Não deveriam investigar, já no processo de seleção, se o futuro estagiário ou funcionário tem a ver ou não com o perfil exigido pela vaga?

 

A grande preocupação aqui é entender por que, nos dias de hoje, ainda encontramos pessoas que se acomodam e não buscam aquilo que realmente querem para sua vida profissional. Que tipo de profissionais se tornarão no futuro? Serão competitivos? Encontrarão espaço em um mercado onde a concorrência está cada vez mais acirrada? A minha dúvida é se esse comportamento é individual, ou reflexo de uma cultura já enraizada, que remete ao passado, a um histórico de repressão à iniciativa pessoal (escravidão, ditaduras, o modelo fordista/taylorista das fábricas ao longo do século XX, etc).

 

Obviamente, isso não acontece com todo mundo. Há aqueles que dão sorte, entram na empresa certa, na hora certa e conseguem a vaga de estágio perfeita. Outros aprendem a gostar das atividades em que começam a estagiar e decidem continuar a carreira na mesma área. Existem também, os mais raros, que não se deixam vencer pelo conformismo ou acaso. E arriscam tudo para mudar de área, mesmo sacrificando uma bolsa auxílio mais polpuda, mesmo com todos falando que é loucura – estes não abdicam dos sonhos, deixam a vocação falar mais alto, e vão em busca de atividades que possam lhes trazer mais prazer no trabalho.

 

Uma coisa é certa: nenhuma pessoa deveria permitir que seus sonhos fossem sufocados pelas necessidades do dia-a-dia. O ser humano não pode ser guiado apenas pelo seu lado racional, cem por cento do tempo, mesmo em termos profissionais, principalmente quando se trata da própria carreira. Por esse motivo, é justo que os jovens, ao ingressarem no mercado de trabalho, tenham em mente suas aspirações – e que também se deixem guiar por elas.

 

A mediocridade que assola o Brasil

Definição do Aurélio para medíocre:

  1. mediano.
  2. sem relevo;comum, ordinário, vulgar,mediano,meão.
  3. pessoa medíocre.
  4. aquilo que é medíocre.

Mediocridade:

  1. Qualidade de medíocre.
  2. Pessoa medíocre.

Mediocrizar: Tornar-se medíocre; vulgarizar-se.

 

 

O Brasil foi tomado de assalto pela epidemia da mediocridade. Estamos mergulhados no caos e na desordem, no mediano, imediato, no confortavelmente fácil. Vivemos em um tempo em que o que interessa é ter, e nos esquecemos de ser – pessoas dotadas de livre-arbítrio, para transformar esse país em um lugar mais interessante de se viver. Sem violência. Sem corrupção. Com mais ética. Com mais responsabilidade perante a sociedade. Com menos vulgarização.

 

Onde está aquele país cujos poetas tinham a coragem de versar suas mazelas? Cujos pintores expunham com cores fortes o orgulho de sua raça mestiça? Cujos escritores preocupavam-se com o humano, acima de tudo? Cujo povo tinha coragem de gritar mesmo amordaçado? Cujos homens e mulheres encontravam-se para gerar a vida, construir um futuro, serem companheiros? Cujas crianças arrastavam-se pelo chão sujo de terra em busca de aventuras, e não arrastadas pela crueldade da violência? Cujas meninas brincavam de casinha com bonecas, e não com bebês de verdade? O que nós fizemos com o Brasil?

 

Nos perdemos enquanto procurávamos um novo caminho em meio a liberdade recém-conquistada. Os pais cansaram-se de dizer não. Os filhos cansaram-se de pensar. O povo cansou-se de brigar, exigir, lutar. Os poetas, esses morreram e outros ainda não nasceram…ou esqueceram-se de do que deviam dizer.

 

Nos perdemos no dia em que alguém disse que ler é aborrecido. Que cultura é algo fora de moda, que música com poesia é para fracos. Que mais importante é manter a forma física, ser bela como a top model das capas de revista. Quem se importa com a voz, se o artista não é belo?

 

Nos perdemos quando o prazer efêmero foi alçado à prioridade de nossas vidas, quando o álcool deixou de ser boêmio e tornou-se corriqueiro, quando trocamos nossos parceiros por alguns gramas de felicidade instantânea em pó…

 

Nos perdemos quando nada mais foi exigido de nós, jovens, além do que decorar fórmulas e códigos, nomes e lugares para o vestibular, sem nos explicar o quanto isso seria – ou não importante – sem nos ensinar decência, justiça, compaixão, amizade. A partir desse momento, somente competir é o que interessa. Essa é a nova regra a que fomos submetidos…

 

Nos perdemos quando disseram que só um diploma seria suficiente para ganharmos o mundo, e conquistarmos a liberdade. Que liberdade, eu pergunto, num mundo em que não podemos ser o que realmente somos, em nossa plenitude, em nossa mais pura essência?

 

Nossos pais brigaram pela democracia, disseram não à ditadura dos generais, brindaram a anistia e exigiram eleições diretas já!

Nossos primos e irmãos mais velhos disseram não à corrupção e sim à ética, pintaram os rostos, tomaram as ruas e derrubaram um Presidente da República.

 

E nós? O que a história registrará daqueles que nasceram durante a década perdida? O que fizemos de relevante? Qual é a nossa marca, aquela que nos identificará pela eternidade? Será justo sermos lembrado pela efemeridade de nossas vidas?

 

A nossa geração não tem rumo nem sentido. Vivemos pelo hoje, e o amanhã? Quem se importa? Vemos a violência espalhar-se como erva daninha e nada fazemos. Vemos a corrupção infiltrar-se em todos os setores da sociedade, e fechamos os olhos, ignorando-a, dizendo que  não há mais nada que possamos fazer.

 

A letargia nos dominou, tanto faz hoje, amanhã, depois. Nosso passado não nos interessa mais, o futuro também não. Pensar, refletir, analisar, interpretar…são verbos que esquecemos de conjugar, banidos do vocabulário diário.

 

Tornamo-nos, a cada dia, um pouco mais medíocres. E não nos temos dado conta disso. Mas hoje eu me rebelei. Não quero fazer parte disso. Não quero ser somente mais uma na multidão. Ser considerada comum, banal, vulgar.

 

Ainda podemos reverter tudo isso. Ainda temos tempo para dar um basta. Nos revoltar. Deixarmos a preguiça de lado. Voltar a pensar.

O hábito da leitura

Durante a discussão que se seguiu ao post da minha xará Cláudia, na comunidade “Recursos Humanos”, um dos membros foi bastante incisivo ao perguntar, mais de uma vez, quantos livros ela havia lido durante o último ano. Solta, assim, a questão parecia não ter nenhum fundamento com o assunto em discussão – a miopia dos processos de seleção – mas é fato que, no nosso querido Brasil, temos lido cada vez menos. Principalmente os mais jovens, plugados na internet e em mil tecnologias diferentes, se afastam cada vez mais dos livros.

 

Por que isso acontece? Porque ler não é um exercício fácil. Exige concentração, disciplina e interpretação. Ler apenas por ler não basta: tem que entender e conseguir explicar o que se está lendo. Por isso a preguiça, a sensação de “perda de tempo” ao abrir um livro e fecha-lo cinco minutos depois…

 

Preguiça de ler??

Faça-me o favor…

 

Eu simplesmente não consigo ouvir isso e ficar impassível. Toda vez que um interlocutor solta essa pérola na minha frente, ele ouve o que não quer…

 

Ok, confesso que li muito menos que deveria ter lido no último ano. Mas leio. De romances best sellers a livros técnicos. Acredito que um livro bem escrito pode agregar muito para o auto-conhecimento, mesmo que não tenha nada a ver com a formação acadêmica…afinal, literatura também é prazer.

 

Já li artigos de consultores de carreiras extremamente radicais, afirmando que só devemos ler aquilo que realmente será útil na vida profissional ou acadêmica, que devemos focar a real necessidade da leitura, e etc e tal.

 

Não concordo. Óbvio que temos que destinar parte do tempo para estudar, ler artigos e livros técnicos, para agregar novos conhecimentos, técnicas e tendências da carreira que decidimos seguir, mas daí abolir totalmente as crônicas leves, divertidas, ou os romances emocionantes ou as fantasias que nos fazem viajar para terras imaginárias, é ser radical demais, não?

 

Meus colegas na faculdade me taxaram de louca quando me viram sair da biblioteca, carregando o volume único do “Senhor dos Anéis” , mais de 1.200 páginas que nada tinham a ver com o nosso curso. E sim, consegui aliar a leitura daquele “tijolo” com todas as outras exigidas pelos professores…enquanto meus amigos lutavam para ler 100, 120 páginas em um bimestre…

 

Como profissionais podem manter-se atualizados se têm preguiça de ler, estudar a respeito da própria atividade que exerce? Como podem manter-se competitivos? Ou, ainda mais, incrementar o próprio vocabulário e adquirir uma comunicação mais clara?

 

Nunca é tarde para adquirir novos hábitos. E ler – e ter prazer com a leitura – deveria ser um dos primeiros em qualquer lista de prioridades de um profissional, seja em ascensão ou já no topo da carreira.

 

Olhai os lírios do campo

“Poucos livros me marcaram como Olhai os lírios do campo, de autoria de Erico Veríssimo. De uma história de amor  aparentemente banal, surgem diversas lições de vida, que deveriam ser absorvidas por todos que realmente desejam fazer do nosso mundo um lugar melhor para se viver.

O que esse livro tem a ver com Recursos Humanos?

Tudo! Porque acima da “história de amor”, está a personagem Olívia – humana, extremamente humana. Batalhadora. Que trabalha duro, passa por cima de todas as convenções sociais para se tornar médica – isso nos anos 30. E que não desiste diante de nenhum obstáculo. Sua maior ambição é melhorar o mundo, fazendo o que está ao alcance de suas mãos. Em uma época que não existiam os termos Responsabilidade Social, Qualidade de Vida e Sustentabilidade, Olívia faz um discurso lindo em sua derradeira carta ao amante, Eugênio, exaltando as virtudes do trabalho, entre outras lições de vida.”

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Meu querido: o Dr. Teixeira Torres acha que a intervenção deve ser feita imediatamente e daqui a pouquinho tenho que ir para o hospital. Não sei porque me veio a idéia de que posso morrer na mesa de operações e aqui te estou escrevendo porque não me perdoaria a mim mesma se me fosse embora desta vida sem te dizer umas quantas coisas que não te diria se estivesse viva.

Há pouco sentia dores horríveis, mas agora estou sob a ação da morfina e é por isso que encontro alguma tranqüilidade para te escrever. Mas estarei mesmo tranqüila? Acho que sim. De certo é a esperança de que tudo corra bem e que daqui a quinze dias eu esteja de novo no meu quarto, com a nossa filha, e, meio rindo e meio chorando, venha a reler e rasgar esta carta, que então me parecerá muito tola e ao mesmo tempo muito estranha.

Quero falar de ti. Lembras-te daquela tarde em que nos encontramos nas escadas da Faculdade? Mal nos conhecíamos, tu me cumprimentaste atrapalhado, eu te sorri um pouco desajeitada e cada qual continuou o seu caminho. Tu naturalmente me esqueceste no instante seguinte, mas eu continuei pensando em ti, e não sei porquê, fiquei com a certeza de que havias de ter uma grande, uma imensa importância na minha vida. São pressentimentos misteriosos que ninguém consegue explicar.

 Hoje tens tudo quanto sonhavas: posição social, dinheiro, conforto, mas no fundo te sentes ainda bem como aquele Eugênio indeciso e infeliz, meio desarvorado e amargo subindo as escadas do edifício da Faculdade, envergonhado da sua roupa surrada. Continua em ti a sensação de inferioridade (perdoa que te fale assim…), o vazio interior, a falta de objetivos maiores. Começas agora a pensar no passado com uma pontinha de saudade, com um pouquinho de remorso. Tens tido crises de consciência, não é mesmo? Pois ainda passarás horas mais amargas e eu chego até a amar o teu sofrimento, porque dele, estou certa, há-de nascer o novo Eugênio.

 Uma noite me disseste que Deus não existe, porque em mais de vinte anos de vida não o pudeste encontrar. Crê que nisso se manifesta a magia de Deus. Um Ser que existe mas é invisível para uns, e mal perceptível para outros e de uma nitidez maravilhosa para os que nasceram simples ou para os que adquiriram simplicidade por meio do sofrimento ou da profunda compreensão da vida.

 Dia virá em que nalguma volta do teu caminho hás-de encontrar Deus. Um amigo meu, que se dizia ateu, nas noites de tormenta desafiava Deus, gritava para as nuvens, provocando o raio. Deus é tão poderoso que está presente até nos pensamentos dos que dizem não acreditar na sua existência. Nunca encontrei um ateu sereno. Eles se preocupam tanto com Deus como o melhor dos deístas.  O argumento mais fraco que tenho contra o ateísmo é que ele é absolutamente inútil e estéril; não constrói nada, não leva a coisa nenhuma.

Se soubesses como tenho confiança em ti, como tenho a certeza na tua vitória final…

 Deixo-te Ana Maria e fico tranqüila. Já estou vendo vocês dois juntos e muito amigos, na nova vida, caminhando de mãos dadas. Pensa apenas nisto: há nela muito de mim e principalmente muito de ti. Ana Maria parece trazer escrito no rosto o nome do pai. É uma marca de Deus, Genoca, compreende bem isto. Vais continuar nela: é como se te fosse dado modelar, com o barro de que foste feito, um novo Eugênio.

 Quando eu estava ainda em Nova Itália, li muitas vezes o teu nome ligado ao do teu sogro, em grandes negócios, sindicatos, monopólios e não sei mais quê. Estive pensando muito na fúria cega com que os homens se atiram à caça do dinheiro. É essa a causa principal dos dramas, das injustiças, da incompreensão da nossa época. Eles se esquecem do que têm de mais humano e sacrificam o que a vida lhes oferece de melhor: as relações de criatura para criatura. De que serve construir arranha-céus se não há mais almas humanas para morar neles?

 Quero que abras os olhos, Eugênio, que acordes enquanto é tempo. Peço-te que pegues na minha Bíblia, que está na estante de livros, perto do rádio, e leias apenas o Sermão da Montanha. Não te será difícil achar, pois a página está marcada com uma tira de papel. Os homens deviam ler e meditar nesse trecho, principalmente no ponto em que Jesus nos fala dos lírios do campo, que não trabalham nem fiam e no entanto nem Salomão em toda a sua glória jamais se vestiu com um deles. Está claro que não devemos tomar as parábolas de Cristo ao pé da letra e ficar de papo para o ar, esperando que tudo nos caia do Céu. É indispensável trabalhar, pois um mundo de criaturas passivas seria também triste e sem beleza. Mas precisamos dar um sentido humano às nossas construções. E quando o amor ao dinheiro, ao sucesso, nos estiver deixando cegos, saibamos fazer pausas para olhar os lírios do campo e as aves do Céu.

 Não penses que estou fazendo o elogio do puro espirito contemplativo e da renúncia, ou que ache que o povo deva viver narcotizado pela esperança da felicidade na “outra vida”.

 Há na Terra um grande trabalho a realizar. É tarefa para seres fortes, para corações corajosos. Não podemos cruzar os braços enquanto os aproveitadores sem escrúpulos engendram os monopólios ambiciosos, as guerras e as intrigas cruéis. Temos de fazer-lhes frente. É indispensável que conquistemos este mundo, não com as armas do ódio e da violência e sim com as do amor e da persuasão. Considera a vida de Jesus. Ele foi antes de tudo um homem de ação e não um puro contemplativo. Quando falo em conquista, quero dizer a conquista de uma situação decente para todas as criaturas humanas, a conquista da paz digna, do espirito de cooperação. E quando falo em aceitar a vida não me refiro à aceitação resignada e passiva de todas as desigualdades, malvadezas, absurdos e misérias do Mundo. Refiro-me, sim, à aceitação da luta necessária, do sofrimento que essa luta nos trará, das horas amargas a que ela forçosamente nos há-de levar.

 Precisamos, portanto, de criaturas de boa vontade. E de homens fortes como esse teu amigo Filipe Lobo, que seria um campeão da nossa causa se orientasse a sua ambição, o seu ímpeto construtor e a sua coragem num sentido social e não apenas egoisticamente pessoal.

 Não sei, querido, mas acho que estou febril. Este entusiasmo, portanto, vai por conta da febre. Ouço agora um ruído. Deve ser a ambulância que vem buscar-me. Senti um calafrio e parece que a minha coragem teve um pequeno desfalecimento. Estás vendo o tremor da minha letra? É que sou humana, Genoca, profundamente humana, tão humana que te confesso, corando um pouco (apesar dos trinta anos e da profissão), que antes de ir para o hospital eu quisera beijar-te muito e muito.

 Ana Maria fica com D. Frida. Sei que, depois, se eu morrer, virás buscá-la para a nova vida.  Reli o que acabo de escrever. Estou fazendo um es forço para não chorar. Tolice! Espero que tudo corra bem e que dentro de duas semanas eu esteja queimando esta carta, que já agora me parece um pouco melodramática.

 Antes que esqueça: na gaveta da cômoda há um maço de cartas que te escrevi de Nova Itália expressamente para não te mandar”. Agora, podes lê-las todas. Não encontrarás nada do meu passado, do qual nunca te falei e sobre o qual tiveste a delicadeza de não fazer perguntas. É pena. Gostaria que soubesses tudo, que visses como a minha vida já foi feia e escura e como lutei e sofri para encontrar a tranqüilidade, a paz de Deus. Adeus. Sempre aborreci as cartas de romance que terminam de modo patético. Mas permite que eu escreva

 Tua para a eternidade,

 Olívia.

 Érico Veríssimo – OLHAI OS LÍRIOS DO CAMPO

Experiência, o que é ter experiência?

“O texto a seguir é de autoria da Cláudia Medeiros, publicado originalmente na comunidade Recursos Humanos, do Orkut. Além de desabafo, serviu para uma interessante discussão a respeito de um dos grandes paradoxos do mercado de trabalho: a porta de entrada para o mundo profissional dos universitários se dá, em sua grande maioria, por meio dos estágios realizados ao longo da gradução. No entanto, ao se formar, o jovem percebe que as empresas não valorizam a experiência adquirida, e exigem que a mesma seja comprovada por meio da Carteira de Trabalho, registro oficial da “experiência”. Então, fica a questão da minha xará – afinal, o que é ter experiência?”

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Experiência s.f. do Lat. Experientia
Ato ou efeito de experimentar;observação;experimentação;ensaio;prova; tentativa;a prática, por oposição à teoria;habilidade e perícia adquiridas com o exercício de uma arte ou ofício;conhecimentos resultantes de vivencias subjetivas;soma de conhecimentos

As pessoas ao logo de nossas vidas, sejam professores, pais, amigos entre outros reproduzem um discurso BLASÉ de que os melhores sobrevivem no mercado, desde que tenham conhecimento, habilidades e atitudes, que o esforço é recompensado, de que isso, de que aquilo.


Estudei na faculdade (pelo menos em administração e principalmente na minha área de interesse acadêmico – RH) de que temos que estabelecer um perfil profissional captando e retendo as melhores pessoas. Que, ao achar uma pessoa no perfil desejado, independente de experiência ou não, a organização pode e deve moldá-lo buscando extrair do indivíduo o seu melhor desempenho.

 

Então vamos treiná-lo, acompanhá-lo, dar a ele feed back constantes, motivá-lo, oferecendo-o um ambiente bom de se trabalhar, um clima organizacional estável onde ele se sinta parte da organização e que seus valores sejam similares ao da empresa, em suma, fazer com esse profissional venha a performar dentro da organização.

                                                                      
Espera-se que um profissional de RH tenha esse olhar clinico, que a área de RH da empresa deva ser uma área estratégica, uma vez que é a área responsável pelo equilíbrio entre os interesses do empregador e do empregado. Deve o profissional dessa área, ter um conhecimento amplo do negócio, deve ter a visão Macro da organização e não se fechar num mundo de rotinas onde as obrigações sejam voltadas apenas ao ajuntamento de papeladas de folha de pagamento, férias e organização de festinhas. O RH é muito mais que isso.


Foi isso que aprendi na faculdade e convivo ao logo de 18 meses na empresa na qual realizo um programa de estagio em RH.  Durante esses 18 meses aprendi o que é transformar uma simples área de RH em uma área Estratégica. Conseguimos (toda a equipe) ser reconhecidamente a melhor área de RH da regional da qual fazemos parte, foi gratificante participar da elaboração de um plano de ação que nos fez saltar de um índice de 64% de satisfação com a unidade para um score de 98% (pesquisa de clima e cultura). Consegui (essa é minha responsabilidade) bater 100% das metas de treinamento, cumprir 100% dos prazos e da gestão dos processos trabalhistas, cumprir 100% em dia e em ordem as tarefas das rotinas administrativas e ser auditada nos meus produtos e ter 0% de dispersão, 100% de conformidade. Ou seja, fizemos de 2008 um ano campeão.

 

Por uma contingência de pessoas, frente à crise que assola o Brasil e o mundo, eu não poderei ser efetivada, e é nesse cenário que começa minha saga.


26 anos, 9 meses de experiência como estagiaria no setor de eventos em uma organização, a convite fui estagiar por 9 meses no setor de recuperação de crédito e atendimento a clientes em outra organização.


Surgiu a oportunidade de ouro, a realização de um sonho. Estagiar numa multinacional, na minha área de interesse, RH. Ganhando quase a metade do valor da bolsa que o estagio no banco me pagava, larguei tudo e fui viver essa experiência. Ao longo desses meses, o aprendizado foi ímpar como relatado no inicio do texto, mas dado o cenário que agora se configura, tive de partir à procura de emprego, de um trabalho formalizado de acordo com a CLT, visto que há 3 anos trabalhava duro, mas sem as “garantias” que um trabalho formal dá ao cidadão.

 

Sempre imaginei que a experiência profissional nada mais era que a prática, que as habilidades resultantes do exercício contínuo da minha profissão, porém o que vejo agora não é nada disso.


Ao sair à procura de emprego vejo que pouco do que relatei é levado em consideração: habilidades e aptidões, conhecimento e EXPERIÊNCIA. O que exigem é uma carteira assinada que em nada comprova o exercício da função.
Mesmo possuindo toda a documentação que comprova o exercício de minha função, tempo de experiência bem como as atribuições e atividades desenvolvidas por mim na empresa, não consigo nem ao menos a indicação para participar de algum processo seletivo. Por quê?
Por que eu não tenho experiência!
Então eu pergunto…
O QUE È TER EXPERIÊNCIA?

 

Autoria:Cláudia Medeiros – estudante de Administração de Empresas

 

 

Seleção de Pessoal: porque é tão difícil ser respeitado quando se procura emprego?

Ao longo da minha curta carreira profissional – cerca de oito anos, desde o primeiro emprego – tive a oportunidade de participar de inúmeros processos seletivos, desde vagas de auxiliar administrativo, depois estágios e por fim, posições de analista.

A jornada começou quando completei 18 anos, concluí o ensino médio, e saí para o mundo, em busca do primeiro emprego. Então, de porta em porta, de agência de emprego em agência de emprego, comecei a ter contato com os selecionadores de pessoal. Vejam bem, nada tenho contra esse profissional, muito pelo contrário. Afinal, eles são pagos para receberem nossos currículos, fazer a triagem e a entrevista inicial. Verificar se o perfil do candidato se encaixa com o perfil da vaga. Nada simples, considerando que lidam diretamente com pessoas e suas expectativas profissionais e, muitas vezes, de futuro.

 Mas estou me adiantando. Voltando ao começo, eu, sem experiência nenhuma no mercado de trabalho, era vista como um ninguém…o destino do meu currículo, quase sempre, era a famigerada pilha – enorme – que muito provavelmente iria para o lixo no fim do dia…paciência, eu ainda não conhecia as regras do jogo.

O primeiro emprego veio – por indicação -, adquiri experiência, me qualifiquei, entrei para a faculdade, hora de alçar novos vôos. Então, um dia decidi que era hora de enfrentar o mercado novamente, e saí distribuindo os meus currículos. Naquela “época” – meados de 2001 – internet era um luxo, que eu podia utilizar somente aos finais de semana. Ou seja, nada de procurar emprego pela web. No máximo, utilizava o computador para encaminhar os currículos por email, quando solicitado no anúncio do jornal.

Um novo emprego, depois o primeiro estágio. O segundo, consegui por meio de um processo seletivo acirrado. Trabalho de primeira categoria, consultoras competentes, sempre fornecendo feedback das etapas. Infelizmente, por uma contingência, meu contrato não foi renovado ao final do primeiro ano. Ou seja, estava mais uma vez disponível no mercado, para enfrentar o último estágio e concluir a minha graduação.

Concluída a faculdade, hora de conseguir um emprego de verdade. Não era o primeiro – afinal, eu já tinha um registro em carteira – mas seria de fato o início da minha carreira como administradora de empresas, atuando na área de recursos humanos/departamento de pessoal – assim mesmo, era (ainda é) o que constava em meu currículo.

Foi então que eu percebi que o mercado de trabalho pode ser extremamente cruel, que três anos de experiência em estágio, para muitas empresas nada significa e, por fim, lidar com o mau humor e indiferença dos selecionadores. Nesse período – começo de 2005 – foram várias as situações, que considero constrangedoras, pelas quais eu passei:

– Em uma agência, ao deixar o currículo, a recepcionista perguntou minha pretensão salarial. Respondi que era em torno de R$ 1.200,00 – afinal, era a média salarial para um Analista de Pessoal Jr – e ela riu – sim, ela riu da minha “pretensão” em querer ganhar um salário, que afinal não era nenhum absurdo – tendo como experiência apenas “estágios”. Saí de lá me achando um lixo…

– Quando fui fazer uma entrevista no escritório de uma grande rede de lojas femininas, peguei um ônibus errado, me perdi e cheguei cinco minutos atrasada. A gerente me deixou esperando quase duas horas, para depois me atender de mal-humor, perguntar por que me atrasei, e fazer uma “entrevista” de cinco minutos. Nunca me deu um único retorno, nem mesmo para dizer que não aceitava candidatos atrasados. Se ela achou um absurdo o meu atraso, porque simplesmente não mandou a recepcionista me dispensar?

– Depois, fiz uma entrevista para uma vaga temporária, e a selecionadora virou para mim e perguntou se eu estava participando de mais algum processo seletivo. Ora, estando desemprega, era óbvio que sim, não? Não sei se foi a resposta positiva, mas depois dessa entrevista, nunca mais deram retorno da vaga…

Foram apenas dois meses de procura. Por fim, consegui um emprego – não o dos meus sonhos, mas o que me aliviou um pouco financeiramente – depois outro, no qual permaneci por quase três anos. No último ano nessa empresa – entre 2007 e meados de 2008, comecei a buscar uma nova oportunidade, principalmente por causa do salário. E lá vou de novo – dessa vez experiente e com muito mais traquejo para lidar com situações inesperadas. Nesse período as “pérolas” foram as seguintes:

– A selecionadora me ligou, de uma consultoria de São Paulo/Capital, para uma vaga nessa cidade. Perguntou qual era o meu salário atual e qual a minha pretensão. Ora, o meu salário estava completamente defasado em relação ao mercado. E se tem algo que aprendi, é que sempre devemos informar uma pretensão um pouco mais alta do real, para termos margem para negociação. Foi o que fiz, e informei um valor que era quase o dobro do meu salário – mas o valor real de mercado para uma posição de Analista Pleno – e sou obrigada a ouvir o seguinte: “Nossa, mas isso é o dobro do seu salário!!! Por que você quer ganhar tanto? O meu cliente está oferecendo um valor próximo ao seu salário atual.” – Minha reação inicial foi responder “não é da sua conta o quanto quero ganhar”, mas não achei educado…com sangue-frio, respondi: “eu conheço o mercado, sei quanto está valendo esse cargo em São Paulo, e o valor que o seu cliente está oferecendo é ridículo, portanto não me interessa…eu sei que mereço ganhar o que estou pedindo”. Ok, nunca mais me ligaram dessa consultoria (e olha que é uma relativamente famosa), mas ao menos consegui me posicionar.

– Participei de um processo seletivo para uma fábrica daqui da região de São José dos Campos. Salário excelente, benefícios idem, era o emprego dos meus sonhos. Fui bem na entrevista e a gerente me informou que em uma semana, dariam o retorno. Esperei ansiosamente uma semana. Depois de dez dias de silêncio, liguei para a consultoria. Me pediram para aguardar mais alguns dias, pois a empresa ainda estava entrevistando outros candidatos, mas eu ainda estava no processo. Mais quinze dias, liguei novamente. Sim, o processo ainda estava aberto…sim, eu continuava participando, mas tivesse paciência. Não liguei mais e desencanei. Mas eis que quatro meses depois (!!!), uma ex-colega liga para nós, no escritório, e nos comunica, toda feliz, que havia sido aprovada para a tal vaga, na tal empresa!!! Em menos de uma semana ela fez a entrevista na consultoria, depois na empresa e por fim, conseguiu a vaga. Não tiro o mérito dessa pessoa – ela tinha mais experiência e qualificação que eu, reconheço – mas não me conformei com o descaso por parte da consultoria, de nunca ter me comunicado que eu estava fora do processo. Foram meses aguardando um retorno que nunca veio. Quando eu soube disso tudo, liguei para a consultora, e ela, extremamente antipática, me informou que a vaga só havia sido fechada naquele dia, e que eu seria comunicada por e-mail – que nunca chegou à minha caixa postal.

– No mesmo condomínio empresarial onde eu trabalhava, instalou-se uma famosa empresa de call center. Fui chamada duas vezes para fazer entrevista. Na primeira vez, depois de passar a manhã fazendo uma bateria de testes, aguardei mais de duas horas para passar pela entrevista com a psicóloga. Então ela me informou que precisavam de uma pessoa com disponibilidade total de horário para trabalhar, inclusive de madrugada, finais de semana e feriados. Educadamente, declinei da oferta. Meses depois, me chamaram novamente. Queriam que eu fizesse todos os testes novamente, mas me recusei. Por fim, acharam o meu processo anterior, e me pediram para aguardar até a gerente, que iria me entrevistar, sair de uma reunião. Aguardei meia hora, procurei a responsável pela seleção. Ela me informou que a tal reunião iria durar a manhã inteira. Dessa vez, não disse nada. Simplesmente saí da empresa, voltei ao meu trabalho e prometi a mim mesma nunca mais responder a nenhum anúncio dessa empresa. Foi o cúmulo do desrespeito a um profissional.

Por fim, acabei sendo demitida em meados de 2008. Aproveitei a dupla dinheiro no bolso + tempo livre – coisa inédita em minha vida – e fui viajar. Passei um mês estudando inglês na África do Sul, minha primeira experiência no exterior, uma lição de vida para mim.

Na volta, adivinhem só…novamente no mercado, procurando emprego. Mas dessa última vez acredito que amadureci, profissionalmente, o suficiente para não me deixar abater pelas situações que considero absurdas.

Mas ainda assim, eu gostaria de entender o que se passa com profissionais que estão na linha de frente da seleção de pessoal de empresas dos mais diversos portes, e que são incapazes de tratar com um pouco mais de dignidade profissionais em busca de uma nova colocação.

Por que é tão difícil:

– Serem menos arrogantes?

 – Ler e interpretar o currículo, antes de ligar e fazer perguntas óbvias (por exemplo: “você tem experiência em todas as rotinas de DP”? sendo que essa é a primeira informação do meu currículo)

 – Ouvir com atenção a pretensão salarial do candidato, e educadamente informar que o oferecido é um valor inferior, e agradecer a atenção?

– Explicar educadamente como se faz para chegar ao local da entrevista e, se possível, fornecer um mapa por e-mail, ou informar a linha de ônibus? – Não fazer o candidato esperar – afinal, mesmo que ele esteja desempregado, isso não significa tempo livre a ser desperdiçado em salas de espera?

– Ouvir o candidato com atenção, olho no olho? O texto ficou longo, mas ele estava a meses esperando para ser escrito.

Porque eu leio depoimentos aos montes, de pessoas que passaram por situações semelhantes às minhas, senão humilhantes. Existem relatos de profissionais que tremem ao saber que terão de passar por uma dinâmica, devido a péssimas experiências em processos anteriores. Então, me pergunto: onde estão os responsáveis pelos processos seletivos? Por que essa banalização da área de Recrutamento & Seleção? Não quero, com esse artigo, banalizar a profissão do Selecionador.

Encontrei sim, muito profissional competente, extramente honestos em sua função. Realizei entrevistas em que ficou muito claro que o meu perfil não se encaixava na vaga – ou que a vaga não atenderia minhas expectativas profissionais – e nem por isso foram experiências ruins. Pelo contrário, me enriqueceram e me fizeram refletir sobre meus pontos fracos, o que eu poderia melhorar, quais eram realmente os meus objetivos. São de profissionais como estes que precisamos em todas as consultorias, em todos os departamentos de R&S.

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