Arquivo mensal: junho 2009

Uma história real de conquista e decepção

O relato que vocês lerão mais abaixo é verídico e aconteceu comigo. O intuito deste texto não é me fazer de vítima, mas sim expor uma situação constrangedora e que pode acontecer a qualquer pessoa que, assim como eu, resolveu sair da zona de conforto e buscar uma nova oportunidade profissional. Por uma questão de ética, vou omitir os nomes da empresa e pessoas envolvidas nesse processo. Afirmo apenas se tratar de uma organização multinacional de tecnologia, sediada em São Paulo – Capital.

 

O processo iniciou-se em 31 de Março de 2009, quando recebi um recado pelo Inbox do LinkedIn, da Analista de Recrutamento & Seleção da empresa, informando que havia uma vaga de Analista de Recursos Humanos adequada ao meu perfil profissional. Na mesma hora respondi a mensagem e poucos minutos depois, já estava ao telefone com essa profissional, agendando uma entrevista para dali dois dias.

 Na manhã do dia 02 de Abril me desloquei de São José dos Campos (onde eu trabalhava e residia) para São Paulo, a fim de participar da entrevista, primeiramente com a Analista de R&S, e em seguida, com o Diretor de Recursos Humanos, extremamente simpático, que conduziu a entrevista de forma bastante informal. Confesso que saí de lá bastante impressionada e torcendo para ser selecionada.

 No mesmo dia, a selecionadora me ligou para marcar a entrevista seguinte, dessa vez com o Diretor de Recursos Humanos para América Latina e me antecipou que ele não fala português. Ou seja, a entrevista seria conduzida ou em espanhol (que apenas entendo, mas não falo) ou em inglês, o que obviamente foi nossa escolha (minha e do diretor), quando nos encontramos na segunda-feira seguinte, dia 06 de Abril.

 Ainda neste dia (06/04), me ligaram novamente da empresa, desta vez para agendar a derradeira entrevista, com a Diretora de Talentos, uma norte-americana, por telefone, ainda naquela semana. Nesse momento, fiquei realmente nervosa. Nunca havia conversado com alguém, em inglês, ao telefone. Ainda mais fazer uma entrevista que definiria minha admissão ou não para aquela vaga. Preparei-me como nunca havia feito antes, porque eu queria muito aquele emprego. E meu empenho foi recompensado, porque menos de duas horas depois da entrevista por telefone, fui comunicada que estava aprovada para a vaga. O emprego era meu.

 Óbvio que me senti nas nuvens. Afinal, eu acabara de conquistar tudo o que eu buscava desde a minha graduação. Não seria mais estagiária nem terceirizada, finalmente era efetiva, dentro de uma área de Recursos Humanos, com grandes perspectivas de crescimento. Essa era a minha expectativa e também o que todos os profissionais envolvidos naquele processo me venderam. Que aquela era uma empresa em franco crescimento e oportunidades para os profissionais não iriam faltar, desde que se dedicassem com afinco ao trabalho.

 Compareci à empresa no dia 09/04, véspera de feriado, para assinar a carta-oferta e levar os documentos necessários para minha admissão, que seria efetivada em 28/04. Nesse mesmo dia, fui informada que o simpático diretor que me entrevistara na semana anterior, havia pedido demissão, e que,  para a posição dele, a empresa contratara uma Diretora, com vasta experiência em Gestão de Pessoas em empresas multinacionais. E detalhe, ela também seria admitida na mesma data que eu. Recebi a notícia de forma natural. Curiosamente, na empresa onde eu ainda trabalhava (e da qual iria pedir demissão logo depois do feriado), isso também havia acontecido (ser admitida junto com o chefe) e desenvolvi um excelente relacionamento com o meu coordenador. Embora nunca tivesse respondido diretamente ao nível executivo, imaginei que poderia repetir a história.

 Viajei durante o feriado de Páscoa com o meu namorado e um animado grupo de amigos e comemoramos bastante o meu novo emprego e o fato de que me mudaria para São Paulo. De volta a São José dos Campos, na segunda-feira, pedi demissão e comecei o processo de mudança, principalmente encontrar um lugar bacana e próximo ao trabalho, para morar.

 Em 28 de Abril, já instalada na Capital, ingressei na empresa. Fui muito bem recebida, pessoas simpáticas e amáveis. E logo conheci minha chefe, a nova Diretora Executiva de Recursos Humanos. Conversamos pouco naquele dia – assim como eu, ela também precisava entender o funcionamento da organização. E lógico que, na posição dela, isso era muito mais complexo.

 Nos dias que se seguiram, eu procurei me aprofundar na cultura da empresas e entender como funcionavam os processos (que se mostraram bastante complexos, ao menos para mim).  Além disso, procurava interagir com os demais profissionais da equipe e, ao mesmo tempo, atender a todas as solicitações da Diretora.

 E atender à essas solicitações se tornou a minha rotina naquelas semanas. Cada caso diferente que aparecia, ela pedia (ou exigia) que eu explorasse o assunto até o fim, e encaminhasse todas as informações a ela. Mas conversávamos muito, muito pouco. Fora os e-mails diários e alguns  telefonemas (quando ela não estava na empresa), o nosso contato era quase nulo. Já que éramos duas novatas dentro da organização, imaginava que o óbvio, naquela situação, seria dividir, discutir tudo o que estávamos descobrindo e juntas encontrarmos o nosso caminho. Mas isso não acontecia e eu tinha dúvidas se eu deveria tomar a iniciativa e procurá-la para saber o que ela esperava do meu trabalho…

 Então, começaram as entrevistas. De seleção, para a área de Recursos Humanos. Sem consultar a área de Seleção,  convocou diretamente alguns candidatos para uma vaga que ninguém sabia qual era, mas que gerou diversas especulações na empresa.

 E enquanto isso, eu tentava conduzir o meu trabalho da melhor forma possível, embora o clima entre todos os colaboradores do RH estivesse péssimo. Tudo porque faltava clareza nas atitudes da Diretora – ninguém entendia ao quais eram as pretensões dela dentro da empresa. Eu evitava dar ouvidos à famosa rádio-peão, e mesmo quando soube, por terceiros, que ela ainda “não havia definido a equipe dela”, tentei racionalizar, e assumi que ela iria expandir o departamento de RH com a contratação de mais um profissional, talvez um coordenador. Isso seria lógico dentro do contexto da empresa, afinal estávamos em crescimento acelerado. E não é exatamente isso o que se espera de uma área de Recursos Humanos, estratégica e atuante? Acompanhar o crescimento da empresa e dar suporte às estratégias da organização? Ao menos ela fora contratada para isso… e até o dia 29 de Maio de 2009 eu acreditava que eu também faria parte de todo esse processo…

 Porque foi nesse dia, aproximadamente às 13h30min (logo após o intervalo do almoço), que toda a minha expectativa, construída naqueles últimos dois meses, desmoronou, quando ela me comunicou, incisivamente, que eu estava demitida. Que não havia espaço na organização, em face de toda estratégia que ela estava montando, para uma profissional com o meu perfil. Naquele momento, eu estava sendo descartada como se fosse mais um equipamento sem qualquer utilidade. Ela não enxergou ali um ser humano, mas sim uma coisa que precisava ser eliminada por ocupar sem necessidade um espaço útil. 

 Eu tive poucos minutos para recolher meus pertences e ir embora. Era uma sexta-feira, fazia muito frio e nunca me senti tão perdida e sem rumo como naquele dia. Até que eu reuni coragem suficiente para ligar para minha mãe, a única pessoa com quem eu queria falar naquele momento. Quando o chão sumiu debaixo dos meus pés, ela e o restante da minha família foram os únicos que realmente conseguiram me trazer algum consolo…

 Depois de dez dias, ao receber as verbas rescisórias, contatei a empresa para buscar a documentação para saque do FGTS. E foi quando eu soube que, na quarta-feira seguinte à minha demissão, a minha vaga já estava ocupada por outra Analista. E que essa pessoa já havia trabalhado anteriormente com essa Diretora de RH…

 Tudo o que posso fazer agora é dar a volta por cima. Não está sendo fácil, porque o sentimento de frustração é forte. Além do mais, é constrangedor para eu admitir que permaneci apenas um mês em uma empresa e fui demitida. Isso nunca havia acontecido antes e fico extremamente preocupada como isso vai ser visto pelos selecionadores que estão recebendo o meu currículo.

 Eu ainda não sei que lições eu vou tirar de toda essa história. Na hora em que fui demitida, tudo o que consegui argumentar era que havia pedido demissão de um emprego estável, onde dificilmente seria desligada por iniciativa da empresa, deixei família e todo o conforto de morar com os pais para buscar uma nova vida, tanto profissional quanto pessoal. Mas do outro lado da mesa havia apenas alguém preocupada com estratégias, números e lucro. Será que cometi algum erro grave durante aquele mês de maio? Eu realmente não sei dizer. 30 dias, em minha opinião, é tempo insuficiente para avaliar o trabalho e o perfil de alguém. Só posso dizer que essa pessoa passou pela minha vida apenas para mostrar o tipo de profissional que eu não pretendo ser.

Se para ocupar um cargo de liderança algum dia, eu precisar passar por cima de outras pessoas, assim como ela fez comigo, então prefiro continuar onde estou e permanecer com a minha consciência tranqüila…

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Apresentação Profissional – Cláudia Feijó

03 de Junho – Dia do Administrador de Pessoal: Uma pequena história para valorizar a profissão

Dizem que trabalhar em “departamento pessoal” (sinceramente prefiro a expressão Administração de Pessoal) é extremamente desgastante e não traz reconhecimento profissional algum, já que a empresa enxerga essa área apenas como um centro de custo. Não é por acaso que é um departamento altamente “terceirizável”.

 Por um lado, eu concordo com essa premissa, até porque já senti na pele o que é trabalhar, trabalhar, trabalhar e não receber de volta nem mesmo um “muito obrigado pelo seu empenho”. Fora a rotina puxada, zilhões de cálculos e controles para que tudo saia com perfeição e nenhum empregado seja prejudicado em seus benefícios e pagamentos. Ou, ao contrário, para que não recebam além do que têm direito, trazendo prejuízos para a empresa.

 No entanto, existem momentos em que a profissão torna-se gratificante. E foi pensando nisso que resolvi escrever esse pequeno artigo, em comemoração ao dia do Administrador de Pessoal.

 Eu já estava na empresa há mais de um ano quando recebi o telefonema de um dos diretores. Homem de cerca de quarenta anos, formado em Física, com pós-doutorado no exterior, gerenciava uma área de alta complexidade na organização. Nós nunca havíamos conversado antes, porém eu já havia recorrido ao prontuário dele algumas vezes, em busca de documentos, por isso conhecia o seu histórico. Quando atendi ao telefone e ele se identificou, pensei – “só pode ser problema com algum funcionário dele… o que será que aconteceu?”.

 Logo nas primeiras palavras, ele foi bastante gentil:

 – Cláudia? Bom dia, aqui é o “fulano”. Estou precisando da sua ajuda…

 – Sim, claro, qual é a sua dúvida?

 – É o seguinte: vou sair de férias na segunda-feira. Trabalho há dez anos nessa empresa, e é sempre a mesma coisa, nunca consigo entender o recibo de férias, o que tenho direito a receber, se vou ter adiantamento…será que você poderia me ajudar a entender?

  Meu primeiro pensamento foi: “fala sério… um cara inteligente desses, não conseguir decifrar um simples recibo de férias?” Mas foi então que percebi que aquela não era, definitivamente, a especialidade dele. Ele poderia ser muito bom, excelente, o melhor profissional do país na área dele…mas ele não tinha a obrigação de saber todos os cálculos de férias…mas tinha o direito a saber quais valores iria receber nos próximos dias e qual o impacto no pagamento (quem trabalha sabe a confusão que as verbas causam…).

 Acessei o recibo de férias e, com ele ao telefone, fui pacientemente explicando o que significavam todos aqueles termos “complexos”. Deixei claro que o terço das férias, o abono pecuniário e o décimo-terceiro salário é que eram os valores adicionais, e o restante, salário, ou seja, fazia parte da remuneração normal e que não convinha gastar tudo de uma vez, com uma viagem, por exemplo, (outro erro típico de quem sai de férias…). Como o salário dele beirava o astronômico, os cálculos eram mais complexos. Por isso, a conversa se estendeu por mais de vinte minutos, até que ele se satisfez com todas as minhas explicações. Ao se despedir, ele falou a seguinte frase, que me lembro até hoje:

 – Cláudia, muito obrigado pelas suas explicações. Até hoje ninguém havia me esclarecido tão bem o que significam as verbas de férias. Acho que ano que vem não terei mais problemas em entender esse recibo. Muito obrigado mesmo!!

 – De nada – respondi – sempre que você precisar, pode entrar em contato. É exatamente para isso que estou aqui, para sanar as dúvidas de todos os funcionários da empresa.

 – Sim, com certeza – ele ainda acrescentou – eu realmente não entendo nada desses cálculos. É sempre bom ter alguém especialista no assunto, para que a gente possa consultar e não ter que se preocupar com essas contas.

 Desliguei o telefone e me senti bastante motivada. Afinal, ele tinha razão e disse o óbvio – eu, sendo especialista, tinha mais competência para tratar do assunto férias que ele – mas me estimulou a trabalhar com muito mais empenho naquele dia. E mesmo hoje, passados mais de dois anos, quando sinto que algumas pessoas querem “rebaixar” a qualidade do meu trabalho ou desvalorizar a função, penso naquele diretor e em sua humildade ao reconhecer que não sabe tudo.

 Por isso, caros colegas, nunca deixem que ninguém os desanime. Se o trabalho é árduo, vamos procurar meios de torná-lo mais agradável – e, se possível, promovendo-o, tratando-o como algo realmente útil ao funcionamento de qualquer organização – e não permitir a desvalorização do profissional de Administração de Pessoal.

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