Invictus

E já que é para retomar, que seja com um texto interessante…rs.

Escrevi esse resenha sobre o filme Invictus para uma matéria da pós-graduação, no ano passado. Não contextualizei na resenha, mas sou uma grande fã do Nelson Mandela, e ter passado um período na África do Sul em 2008, convivendo com os costumes do povo sul-africano, conheci muito mais sobre a história recente do país, sobre a luta do Mandela e os efeitos do apartheid até hoje sobre a população.

———————————————————————————–

INTRODUÇÃO – ÁFRICA DO SUL E O FIM DO APARTHEID: TEMPOS DE MUDANÇAS SIGNIFICATIVAS PARA A NAÇÃO

Em 1990 tinha fim na África do Sul o brutal regime do Apartheid, que durante décadas segregou os negros dos brancos daquele país. Nesse ano, o principal líder da resistência contra o regime, Nelson Mandela, era libertado após passar 27 anos preso. A partir desse momento, iniciava-se um novo período para a África do Sul, baseado na igualdade das raças.

Nelson Mandela foi eleito presidente nas primeiras eleições livres do país, em 1994. Seu discurso pregava a criação de um único país sob a bandeira do arco-íris – simbolizando todos os povos e etnias que compõe a população sul-africana. As palavras de ordem de Mandela eram RECONCILIAÇÃO E PERDÃO. No seu entendimento, sem essas duas ações o país jamais se uniria em uma única nação. O seu temor – justificado – era que, uma vez com um presidente no poder, representando-os, os negros passassem a vingar todos os anos de segregação e repressão contra os brancos, o que levaria o país ao colapso e a uma provável guerra civil.

Assim, logo que tomou posse, Mandela cuidou de manter a seu serviço os seguranças que trabalharam para o governo anterior, assim como os demais funcionários do gabinete profissional. Ele deixou claro que todos eram livres para ficar ou partir – mas que isso fosse uma decisão baseada em competências pessoais para o desempenho dos cargos, e não na etnia ou na cor da pele.

INVICTUS – O ESPORTE A SERVIÇO DA POLÍTICA

O filme Invictus, estrelado por Morgan Freeman (Nelson Mandela) e Matt Damon (François Pienaar), retrata esse período extremamente delicado da política sul-africana, e como o esporte pode ser utilizado para unir uma nação em torno de um objetivo comum.

Um dos símbolos do Apartheid, a seleção sul-africana de rugby – os Springbocks – estava passando por um momento delicado: depois de sofrer sucessivas derrotas e desacreditado pelos torcedores, era alvo de chacotas, e membros do governo de Nelson Mandela sugeriam que o time deveria ser extinto, principalmente por tudo de ruim que representava.

O rugby, esporte introduzido na África do Sul pelos ingleses, sempre foi considerado um esporte elitista, dos brancos e proibido para os negros. Esses preferiam o futebol (que até hoje é associado pelos sul-africanos como um esporte de negros), e os poucos que assistiam às partidas da seleção, torciam a favor do adversário.

Com o país em uma profunda crise de identidade, precisando urgentemente de uma causa comum a todos e as vésperas da realização da Copa Mundial de Rugby na própria África do Sul, Nelson Mandela decide apoiar os Springbocks, gerando grande polêmica entre os seus aliados, opositores e a própria seleção.

Primeiramente, Mandela reuniu-se com François Pienaar, o capitão dos Springbocks, e o principal defensor da seleção. O presidente viu no jovem um grande aliado em potencial, e buscou identificar nele as características de um líder pronto para defender o time até o fim. No entanto, Pienaar estava longe de ser esse líder, porém, uma vez frente à Mandela, prometeu fazer o que fosse possível para conseguir alcançar a meta proposta pelo presidente: vencer a Copa do Mundo de Rugby de 1995.

A META DE MANDELA – FAZER COM QUE A ÁFRICA DO SUL VENCESSE A COPA MUNDIAL DE RUGBY

Para vencer a copa, o time precisava, principalmente, do apoio de toda a população à sua causa. Dos brancos, torcedores habituais, isso não foi tão difícil de obter, apesar dos sucessivos fracassos da seleção. No entanto, era preciso que os negros também apoiassem os Springbocks. E como conseguir isso, uma vez que a seleção de rugby era considerada um símbolo do Apartheid?

Uma das principais ações que Mandela propôs, e os dirigentes dos Springbocks aceitaram, foi a aproximação dos jogadores com a população com a população mais pobre – e negra – nas townships (o equivalente a favelas ou comunidades na África do Sul). Em uma cena emblemática do filme, quando o time chega à primeira comunidade, as crianças do local ovacionam apenas o único jogador negro – e é este que faz com que os colegas se integrem às crianças e vice-versa. Ao final do dia, é possível ver os jogadores ensinando as principais regras do jogo, numa demonstração de respeito mútuo.

Em várias ocasiões, antes e durante a realização da Copa Mundial de Rugby, Mandela fez questão de demonstrar publicamente o seu apoio aos Springbocks, comparecendo aos treinos do time, aos jogos, dando entrevistas onde declarava que torcia pela vitória e encorajando os seus funcionários de gabinete a também se interessarem pelo esporte.

O LÍDER E SUAS FONTES DE INSPIRAÇÃO

Durante o primeiro encontro de Mandela e Pienaar, o presidente perguntou ao jovem como ele inspirava o time – e Pienaar responde prontamente “pelo exemplo”, mas sem detalhar como e com quais exemplos. Mandela, então, declarou que muitas vezes recorria a palavras de outros para se inspirar e inspirar a terceiros. Na ocasião, citou o poema Invictus (que dá nome ao filme, transcrito ao fim da resenha), que lhe deu forças durante os anos em que permaneceu preso, e a música Nkosi Sikelel` iAfrika, tocada em sua homenagem durante a abertura dos Jogos Olímpicos de Barcelona, em 1992. E finaliza, incentivando o capitão dos Springbocks a insipirar seus companheiros de time: “Para construirmos nossa nação, todos nós devemos exceder nossas próprias expectativas”.

Meses após o primeiro encontro com o Presidente, e às vésperas do início da Copa, Pienaar e seus companheiros são convidados a visitar a famosa prisão de Robben Island, onde Nelson Mandela passou 18 dos 27 anos preso. E somente lá, dentro da cela que um dia foi ocupada pelo presidente, e vendo os antigos campos de trabalho forçado, é que Pienaar finalmente compreende que vencer aquela copa não era apenas vencer mais um campeonato. Signficava, acima de tudo, garantir a unidade e a igualdade de direitos entre brancos e negros na África do Sul, ideal pelo qual Mandela sacrificou toda a sua vida.

E é com esse espírito – vencer ou vencer – que Pienaar passa a conduzir o time jogo após jogo, até a grande final contra a temida seleção neo-zelandesa – os All Blacks. O resultado foi a vitória e conquista do título inédito para os springbocks, de Campeões Mundiais de Rugby.

CONCLUSÃO

O filme Invictus retrata a busca de dois homens, com histórias de vida e motivações distintas, por um mesmo objetivo. Mandela desejava a vitória para unir seu país, a despeito de toda a resistência que enfrenta. Pienaar queria vencer para afirmar-se como um grande atleta e conquistar o orgulho dos torcedores.

Nelson Mandela pode não ter conquistado plenamente seus objetivos – 20 anos após o fim do Apartheid, as marcas do preconceito e da segregação racial ainda são visíveis nas ruas e nas atitudes das pessoas. O rugby continua a ser um esporte de brancos, enquanto o futebol, o dos negros. Porém, mudanças ainda estão acontecendo, mesmo que em um processo mais lento que o desejado, e estas são irreversíveis.

O ex-presidente – o primeiro negro da história sul-africana a ocupar este cargo – é o herói vivo que toda nação mereceria ter. Sem empregar a violência, pregando o princípio da “desobediência civil” (a exemplo de Gandhi e Martin Luther King), ele provocou mudanças gigantescas na estrutura da sociedade sul-africana, mesmo tendo sacrificado a sua liberdade durante 27 anos.

Invictus

Autor: William E Henley
Tradutor: André C S Masini

Do fundo desta noite que persiste
A me envolver em breu – eterno e espesso,
A qualquer deus – se algum acaso existe,
Por mi’alma insubjugável agradeço.

Nas garras do destino e seus estragos,
Sob os golpes que o acaso atira e acerta,
Nunca me lamentei – e ainda trago
Minha cabeça – embora em sangue – ereta.

Além deste oceano de lamúria,
Somente o Horror das trevas se divisa;
Porém o tempo, a consumir-se em fúria,
Não me amedronta, nem me martiriza.

Por ser estreita a senda – eu não declino,
Nem por pesada a mão que o mundo espalma;
Eu sou dono e senhor de meu destino;
Eu sou o comandante de minha alma.

Sobre Cláudia Feijó

Sou jovem e estou em busca dos meus sonhos e conquistas, pessoais e profissionais. Tenho os mesmos medos e anseios que tantas outras pessoas da minha idade. O que mais prezo na vida é ser feliz e sei que para isso são necessárias escolhas - muitas delas difíceis. Mas não desisto nunca - e estou aqui para expor idéias, dialogar, discutir!! Aproveitem!!

Publicado em 13/04/2012, em Uncategorized. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: